Corredores Ecológicos por Sandra Alcobia

Corredores Ecológicos

Por Sandra Alcobia

Corredores

Sabe-se que as explorações agrícolas sejam elas ou não intensivas, conduzem a grandes alterações no ecossistema, na grande maioria das vezes com profundos impactos negativos. O corte de áreas extensas de florestas quer para produção de madeira quer para promoção de monoculturas ou pastagens levaram a uma homogeneização e simplificação da paisagem (Angelsen & Kaimowitz, 2001) em nada benéfica para a conservação dos ecossistemas naturais, empobrecendo a qualidade quer dos solos quer das águas.

ecológicos

A degradação e perda do habitat natural que fornecia alimento e abrigo, conduz à fuga de inúmeras espécies de aves, mamíferos, répteis, anfíbios e peixes procurando locais onde se possam estabelecer de novo. Acredita-se que, quer os diferentes habitats afectados quer as espécies que neles se encontram diminuirão a sua capacidade de resiliência potenciando deste modo o efeito das alterações climáticas que poderão levar, por sua vez, a profundos impactos socio-económicos (Kettunen, et all, 2007).

"a existência de uma população cada vez mais sensibilizada para a conservação dos recursos naturais tem vindo a exercer uma forte pressão para que soluções sejam encontradas."

No entanto, a existência de uma população cada vez mais sensibilizada para a conservação dos recursos naturais tem vindo a exercer uma forte pressão para que soluções sejam encontradas, de modo a inverter a exploração negativa que se tem observado um pouco por todo o planeta e onde o Ribatejo não é excepção. Neste sentido, a importância da conectividade entre parcelas de habitat e as espécies que nelas ocorrem são amplamente reconhecidas. A execução de esforços que permitam manter e melhorar a conectividade ecológica entre parcelas, que permitam apoiar a suficiência, coerência e resiliência das espécies é cada vez mais utilizada como medida de mitigação do impacto causado pelo sector agro-florestal (Kettunen, et all, 2007). É neste contexto que a actual tendência da exploração agrícola e de recursos naturais procura o estabelecimento de uma relação entre a produção e a conservação da biodiversidade onde, gestores agrícolas e florestais em conjunto com conservacionistas trabalham para a obtenção de uma exploração sustentável, surgindo o conceito de “corredor ecológico”.

Corredores EcológicosEste conceito tem vindo a ser amplamente promovido como forma de mitigar o impacto causado pela fragmentação de habitat em áreas agrícolas, aumentando o valor da conservação e conectividade (Harvey et al., 2008). Um corredor ecológico não é mais do que uma faixa de vegetação onde o habitat permite criar a ligação entre populações que foram separadas por diversas actividades humanas, quer se trate de áreas agro-silvo-pastoris, ou de estradas ou infraestruturas que interrompam a continuidade do seu habitat natural conduzindo á perda da capacidade de explorar todos os recursos da qual necessitam para a sua sobrevivência (Mech & Hallett, 2001). Os corredores ecológicos facilitam a deslocação das espécies permitindo a troca genética e a dispersão de sementes. Podem ser implementados em duas áreas distintas, água ou terra, geralmente com restauro ecológico de linhas de água e plantação e protecção de áreas verdes arborizadas formando um corredor contínuo

O Sorraia e os Corredores ecológicos

O rio Sorraia representa um exemplo de corredor ecológico, funcionando como tal, na medida em que estabelece uma ligação entre zonas de Cabeção e Mora até à ponta da erva onde desagua no rio Tejo, sendo por isso urgente o planeamento de acções de restauro ecológico ao longo deste sistema. A percepção de que as paisagens agrícolas podem ser geridas em equilíbrio com a biodiversidade, com efeitos neutros ou mesmo benéficos para a produção, levam à procura das melhores soluções adaptando, protegendo e gerenciando diversos tipos de paisagem “ecoagrícolas” gerando benefícios quer para a produção, quer para a biodiversidade (Scherr & McNelly, 2009), Acções de remoção de infestantes, aquáticas ou terrestes (como o jacinto de água, silvados e caniçais) com substituição por vegetação ribeirinha autóctone que forneça abrigo e alimento à fauna (pilriteiros, madressilvas, salgueiros, freixos e amieiros são exemplos de plantas que poderão ser estabelecidas, de acordo com as diferentes características ao logo do rio) que permita o desenvolvimento de galerias ripícolas, ou acções que previnam o assoreamento do rio (como o controlo da construção de diques artificiais) contribuirão, para um maior controlo natural de invasoras e restabelecimento da qualidade de água com consequente beneficio para a fauna. Um corredor ecológico com a dimensão do rio Sorraia e seus afluentes pode ainda representar potenciais serviços de regulação, como o sequestro de carbono tão importante no combate ao aquecimento global, e culturais, como o ecoturismo ou práticas desportivas. A possibilidade de restaurar um sistema aquático que nos traga todos estes benefícios e novas perspectivas de exploração sustentável, sem que para isso tenham de ser abandonadas as práticas agrícolas mas antes adaptadas à nova realidade que enfrentamos, são argumentos de peso na tomada de decisão orçamental de algumas instituições portuguesas que começam já a estabelecer estas medidas de mitigação ao impacto causado pelos sistemas agro-silvo-pastoris. Exemplos destas acções são, a pequena escala a Companhia das lezírias que adoptou já este conceito na sua gestão florestal desde 2009, Montemor-O-Novo juntamente com a Universidade de Évora com a criação de um corredor ecológico entre Montemor e Évora ao longo da Nacional 114 ou a cooperação entre Olivicultores e o LIFE Habitat Lince Abutre que permitiu a criação de mais de 55 hectares de corredores ecológicos.

Sandra Alcobia

Bióloga

Sandra Oliveira Alcobia, Bióloga licenciada pela Universidade de Évora e Mestre em Biologia da Conservação é bolseira de investigação científica, integrada no grupo de investigação CE3C - Carnivore Conservation Ecology group da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Encontra-se actualmente a desenvolver um projecto a longo termo na Companhia das Lezírias, S.A. com o tema “Monitorização da comunidade de mamíferos na Unidade de gestão florestal da Companhia das Lezírias, S.A. e a conciliação das actividades de gestão com a preservação de espécies prioritárias” acompanhando o restauro ecológico de linhas de água e implementação de corredores ecológicos. Os seus interesses principais focam-se na procura de uma conciliação entre a gestão agrosilvopastoril e a conservação da natureza, com principal incidência no grupo dos mamíferos interessando-se por temáticas como a ecologia animal, biodiversidade e conservação da natureza no seu sentido lato. Temáticas como as alterações climáticas e seu impacto na fauna e flora mediterrânicas apresentam actualmente uma das suas principais preocupações.

Referências Bibliográficas

  • Angelsen, A. & Kaimowitz, D. (eds) 2001 Agricultural technologies and tropical deforestation. Wallingford, UK: CABI Publishing.
  • Harvey, C. A., Komar, O., Chazdon, R., Ferguson, B. G., Finegan, B., Griffith, D. M., et al. (2008). Integrating agricultural landscapes with biodiversity conservation in the Mesoamerican hotspot. Conservation Biology: The Journal ofthe Society for Conservation Biology, 22(1), 8–15.http://dx.doi.org/10.1111/j.1523-1739.2007.00863.x
  • Kettunen, M, Terry, A., Tucker, G. & Jones A. 2007. Guidance on the maintenance of landscape features of major importance for wild flora and fauna – Guidance on the implementation of Article 3 of the Birds Directive (79/409/EEC) and Article 10 of the Habitats Directive (92/43/EEC). Institute for European Environmental Policy (IEEP), Brussels, 114 pp. & Annexes.

2 comentários em “Corredores Ecológicos por Sandra Alcobia”

  1. Susana Claudino

    Texto muito bom e essencial para a consciencialização da população para a importância destes corredores ecológicos. Devia ser lido pelo máximo número de pessoas possível.
    Obrigada Sandra.

    1. Obrigada Susana, é uma luta de todos nós, já que é um bem de que todos precisamos. Vem caminhar connosco no próximo dia 15 de Setembro. A realidade in loco é bastante mais assustadora.

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