A invasão por jacinto-de-água

Um caso perdido ou falta de estratégia?

Hélia Marchante

Hélia Marchante

Elizabete Marchante

Elizabete Marchante

Muitas das espécies de plantas invasoras causam impactes negativos muito significativos e representam sérios desafios do ponto de vista da gestão dos problemas que causam. Estes impactes negativos vão desde a diminuição da biodiversidade e dos serviços que os ecossistemas nos prestam até prejuízos económicos avultados, variando com as espécies e as situações. O jacinto-de-água será certamente uma das espécies de plantas invasoras que mais prejuízos causa em Portugal, e em muitos outros países do Mundo. Esta planta aquática consegue formar autênticos tapetes que podem cobrir totalmente a superfície da água levando à alteração do ambiente aquático. Os impactes negativos são diversos e vão desde a forte limitação à utilização da água pelo Homem (uma vez que entope canais e impede a navegação, diminui o aproveitamento recreativo e a prática de desportos náuticos, impossibilita a rega, a pesca, etc.), à ameaça à biodiversidade (algas, peixes, plantas, outras formas de vida) e dos próprios habitats, à diminuição da qualidade da água, ao aumento da eutrofização o que (entre outros aspetos negativos) pode criar condições que facilitam a reprodução de mosquitos vetores de doenças.  Implica ainda, na tentativa de resolver ou mitigar estes impactes, custos muitíssimo elevados na implementação de medidas de controlo.

Invasão por jacinto-de-água

Esta planta, oriunda da Bacia Amazónica, foi das primeiras a ser legalmente considerada invasora em Portugal.

Em 1974 havia já um Decreto-Lei que proibia a sua comercialização (Decreto-Lei n.º 165/74 de 22 de abril). Atualmente está listada como espécie invasora no Decreto-Lei n.º 92/2019, de 10 de julho (que revogou o Decreto-Lei n.º 565/99, de 21 de dezembro), e na lista de espécies exóticas invasoras que suscitam preocupação na União Europeia, constituída ao abrigo do disposto no Regulamento (UE) n.º 1143/2014 do Parlamento Europeu e do Conselho de 22 de outubro de 2014 relativo à prevenção e gestão da introdução e propagação de espécies exóticas invasoras.

E, contudo, passados mais de 40 anos da primeira legislação, é possivelmente a planta invasora aquática com maior distribuição no nosso país e que mais prejuízos causa. Porquê? Será que não a conseguimos gerir melhor? Erradicar a espécie (ou seja, eliminar completamente quer as plantas visíveis quer sementes ou fragmentos que possam dar origem a novos indivíduos) será certamente muito difícil, impossível mesmo, mas controlar ou pelo menos conter não será possível? Acreditamos que sim! Mas a estratégia, se é que existe, precisa ser diferente. Até agora parece-nos que tem faltado uma estratégia bem definida em muitos dos locais onde invade. Adicionalmente, as formas de luta precisam ser repensadas, utilizando meios já disponíveis noutros locais mas que continuamos a não usar, por exemplo, o controlo natural (=biológico), que será abordado mais à frente.

Antes de mais, para combater mais eficazmente esta (ou qualquer outra) espécie invasora, é essencial conhecê-la muito bem. Quem é então o jacinto-de-água ou Eichhornia crassipes (nome científico)? Há muita informação disponível (ver referências abaixo), mas resumimos aqui alguma:

  1. é oriunda da América do Sul, de paragens longínquas – ou seja, em Portugal, onde foi introduzido por volta de 1930, NÃO tem (ainda) inimigos naturais (por exemplo, uma lagarta que lhe coma as folhas, um gafanhoto que se alimente dos caules ou “pés” das folhas e o faça afundar, insetos sugadores de seiva, etc.), facilmente ganhando vantagem na competição com outras espécies que poderiam ajudar a mantê-lo em equilíbrio;
  2. propaga-se vigorosamente de forma vegetativa – ou seja, cada fragmento (como os que facilmente se formam nas ações mecânicas de controlo; ou aqueles que são transportados intencional ou inadvertidamente para novos locais) facilmente origina uma nova planta;
  3. também se propaga de forma seminal – ou seja, se for controlado na época após a floração/ frutificação, é provável que sementes se tenham formado, caído e afundado, ficando prontas para, nos anos seguintes (mesmo que se removam todas as plantas visíveis), germinarem e reinvadir a área. As sementes mantêm-se viáveis até ca. 20 anos e devido às suas dimensões reduzidas são facilmente arrastadas pela corrente. Adicionalmente, podem também ser dispersas por aves aquáticas;
  4. tem uma flor muito bonita – ou seja, cidadãos não informados facilmente a movem para novos locais (quem nunca levou, ou não conhecem quem tenha levado, uma plantinha bonita para o seu jardim, laguinho ou aquário?), de forma a “distribuir” a sua beleza, causando novos focos de invasão;
  5. tem uma variação, associada ao seu ciclo de vida, anual – ou seja, engana! Pode desaparecer por durante alguns meses (seca e afunda), mas volta a aparecer no ano seguinte;
  6. tem crescimento extremamente rápido, mas a taxa de crescimento é mais elevada na Primavera, ocorrendo uma diminuição no Outono devido à descida da temperatura e à formação de geadas –em condições adequadas, pode duplicar a sua população entre 4 e 60 dias, dependendo das condições;
  7. pode sobreviver em terra se houver muita água disponível – ou seja, é preciso ter atenção aos locais onde se colocam as plantas removidas;
  8. a sua estrutura morfológica permite-lhe flutuar – ou seja, cada fragmento pode ser arrastado pela corrente e originar novos focos de invasão distantes da população original;
  9. é favorecida (como várias outras plantas aquáticas) por águas ricas em nutrientes, principalmente azoto, fósforo e potássio – ou seja, por vezes, são as atividades humanas nas áreas limites das massas de água que facilitam o seu crescimento mais acelerado;
  10. pode suportar flutuações drásticas no nível de água, acidez e níveis baixos de nutrientes – ou seja, está, mais ou menos, “pronta para tudo”; ainda assim, temperaturas relativamente elevadas (25 – 30° C) e pouca água, com maior concentração de nutrientes (como os Outonos que temos tido em alguns anos) favorecem-na.

Qual poderá ser então, do nosso ponto de vista e considerando as características da espécie acima referidas, a forma de limitar a expansão de jacinto-de-água na próxima época (considerando que seja removido este ano)? Terá sempre que passar por agir estrategicamente de forma a evitar situações de cobertura extensa das massas de água. Acreditamos que incluirá:

  • Instalação de barreiras flutuantes para dividir o leito em segmentos, de forma a conter a dispersão e possibilitar a remoção dos propágulos afastados das margens. Estas barreiras têm que ser monitorizadas regularmente de forma a remover TODAS as plantas de jacinto-de-água que aí fiquem retidas impedindo o seu rápido crescimento;
  • Monitorização sistemática, regular, de uma rede de pontos estabelecidos (semanal nas áreas onde há registo de ocorrência prévia; mensal em torno da área invadida e semestral em pontos-chave mais distantes) que permita identificar com segurança a extensão da área invadida ao longo do rio (e a deteção precoce na eventualidade de expansão para novas massas de água) e a remoção de TODAS as plantas ou fragmentos de jacinto-de-água (ou outras invasoras aquáticas) detetadas enquanto são poucos indivíduos (i.e., fáceis de eliminar e de forma a impedir situações muito difíceis de eliminar). Estas monitorizações devem iniciar-se antes do Inverno. Equipas de voluntários, após receberem formação específica para tal, podem dar um contributo muito valioso nestas monitorizações. A colaboração dos pescadores ou outros utilizadores das massas de água, por exemplo, poderá ser também extremamente útil;
  • Não havendo capacidade para intervir em toda a zona invadida ou vulnerável, é preferível investir onde a invasão está em fases iniciais, uma vez que com menor esforço será possível evitar que estes locais sejam invadidos em maior extensão;
  • Formação de técnicos e operacionais sobre identificação de espécies invasoras aquáticas e medidas de gestão sugeridas – é importante que fiquem motivados, esclarecidos, empenhados em eliminar TODAS as plantas de jacinto-de-água (e outras invasoras aquáticas, e por outro lado promover as nativas!) que observarem antes que aumentem;
  • Sensibilização para as populações locais e/ou agentes de fiscalização: a sensibilização, esclarecimento e o envolvimento das populações locais é essencial para garantir que cada um pode adotar comportamentos que por um lado não agravem a situação (e.g., não levar jacinto-de-água para outros locais; não adubar os campos limites às linhas de água em excesso) e, por outro, possam ajudar a controlar (e.g., eliminando, de forma correta, pequenos núcleos que observem; participando em ações de voluntariado para controlo). Alguns grupos alvo poderão ser particularmente importantes: escolas, escuteiros, pescadores, associações de regantes, praticantes de desportos aquáticos, etc. Um reforço adicional na fiscalização da sua utilização pela população, nomeadamente em lojas, hortos, feiras e jardins, poderá ajudar a evitar a introdução destas ou outras espécies invasoras em novas massas de água.
  • A nível nacional, mais estratégico, consideramos ainda que é crucial que se avance para o uso de controlo natural (= biológico) da espécie, depois de devidamente estudado e avaliado. Existem vários agentes de controlo biológico (artrópodes e fungos) libertados em vários países com níveis variáveis de sucesso para controlo de jacinto-de-água que deviam ser avaliados para libertação em Portugal. Realizaram-se há alguns anos testes iniciais com um desses agentes que revelaram resultados promissores. A não conclusão dos procedimentos no nosso país determina, no entanto, que este tipo de controlo não seja ainda uma alternativa. Contudo, se provado seguro, o uso de agentes de controlo natural tem potencial para ser uma opção de controlo mais sustentável em termos ambientais e económicos. O controlo mecânico, ainda que preferível ao químico (que, na nossa opinião, será sempre o último recurso), facilita a fragmentação, acarreta muitas vezes custos muito elevados e, se usado sozinho, revela-se frequentemente como uma solução efémera.

Para terminar, desafiamos todos os cidadãos a aderirem ao Desafios Invasoras.pt, tornarem-se cidadãos-cientistas e contribuírem para o estudo, divulgação e resolução dos problemas causados por esta e outras plantas invasoras. Podem: mapear (Desafio1 ou Desafio3 se for em novos locais), seguir o ciclo de vida (Desafio2), divulgar o problema (Desafio4) ou controlar (Desafio5) o jacinto-de-água 

Hélia Marchante1 & Elizabete Marchante2

1 Escola Superior Agrária| Instituto Politécnico de Coimbra| Centre for Functional Ecology – Science for People & the Planet

2- Centre for Functional Ecology – Science for People & the Planet | Departamento de Ciências da Vida | Universidade de Coimbra

Mais informação em:

CABI (2012) Eichhornia crassipes. In: Invasive Species Compendium. CAB International, Wallingford, UK. Disponível: http://www.cabi.org/isc/ [Consultado 10/11/2012].

Coetzee JA, Hill MP, Ruiz-Téllez T, Starfinger U & Brunel S (2017): Monographs on invasive plants in Europe N° 2: Eichhornia crassipes (Mart.) Solms, Botany Letters, DOI: 10.1080/23818107.2017.1381041

Gopal B (1987) Water Hyacinth. Amsterdam: Elsevier Science Publishers.

Plantas invasoras em Portugal (2013) Acacia dealbata. Disponível em: http://invasoras.pt/gallery/eichhornia-crassipes/ Consultado em 10/10/2019.

 

 

1 comentário em “A invasão por jacinto-de-água – um caso perdido ou falta de estratégia?”

  1. Boa noite. Temos assistido ao amontoamento de toneladas de Jacintos nos locais onde decorrem acção de limpeza, ao que me parece sem qualquer destino previsto. Não será possível/viável o seu aproveitamento ao nível da produção de rações ou produção de fertilizantes?

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